02/09/2026
F**a o registo da sessão esgotada de A ODISSEIA, assim como a folha de sala escrita exclusivamente para esta sessão por André M. Garcia.
Bem-haja a todos e até aos próximos filmes!
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Texto de André M. Garcia (originalmente escrito para esta sessão)
Estamos no Ano do Senhor de 2026 e um pequeno grupo de cineastas resiste ainda e sempre às plataformas de streaming e aos pequenos ecrãs (como o caso da Cinema United, conglomerado de exibidores cinematográficos Norte-Americanos). Christopher Nolan encabeça um conjunto de realizadores (Steven Spielberg, Sean Baker, Denis Villeneuve, Quentin Tarantino, Paul Thomas Anderson, Robert Eggers, Brady Corbet, Ryan Coogler, Celine Song, etc) que dá prioridade absoluta à estreia e permanência da sua filmografia em sala, bem como à rodagem e m***agem dos seus filmes em película. É um caso de um realizador da hipermodernidade mas que é ao mesmo tempo da velha guarda. A sua jornada começa a/em16mm na sua estreia cinematográfica com 'The Following' continuando até à exclusividade da rodagem em IMAX 70mm no caso de 'The Odyssey'. Não é um pormenor ser novamente um filme rodado em película (70mm) e em/para largos formatos (IMAX). Este formato imersivo e de larga escala revela-se um sucesso e leva as pessoas em magotes à sala de cinema. Esse sucesso retumbante ainda ontem verifiquei em primeira mão quando o fui rever em IMAX e às 20h da noite de um Domingo me deparei com uma sessão completamente esgotada quando já passaram 38 dias da sua estreia comercial em sala - um óptimo indicador do sucesso do filme que já passou o milhar de milhão de dólares (ou Bilião de Dólares no caso dos Estados Unidos) de box-office ao redor do mundo. No caso de Nolan e desde 'Interstellar' todos os seus filmes têm estreado em salas IMAX. É um realizador que faz cinema de meta-entretenimento para a sala de cinema e aí encontra poucos rivais.
Apesar do sucesso comercial do filme, o mesmo tem sido alvo de críticas, umas mais laterais e acessórias, outras mais substantivas e de m***a. Em relação às críticas mais acessórias, um comentário feito amiúde quando foi conhecido o elenco do filme foi o supostamente carácter woke do mesmo - como a actriz Queniana-Mexicana Lupita Nyong'o a representar Helena de Tróia, o rapper Americano Travis Scott a fazer de Bardo, ou o actor trans Canadiano Elliot Page a fazer de Sinon, para dar apenas alguns exemplos. Contudo, essas críticas oriundas de sectores mais radicais da direita conservadora e de quadrantes anti-woke acabam por fazer pouco sentido dado que o filme é uma obra de ficção adaptando outra obra de ficção e o casting acaba por ser moderno e inclusivo ao invés de ser culturalmente correcto. Do lado das críticas substantivas e que tem gerado numerosas páginas de irritação online prende-se com o facto de o filme ser bastante casto e igualmente comedido na violência gráfica, duas coisas que destoam da sangrenta obra de Homero. A mais violenta crítica foi aliás redigida - facto algo irónico - pela tradutora de 'A Odisseia' para Inglês apesar desta ser citada directamente por Nolan como uma das fontes de inspiração na escrita do filme e na adaptação cinematográfica do mesmo nomeadamente a partir da sua inspiradora frase de abertura do poema épico: "Tell me about a complicated man" (‘Conta-me sobre um homem complexo/difícil’). Apesar disso e do agradecimento à autora e académica Emily Wilson, a sua crítica ao filme foi demolidora frisando que o filme falha do ponto de vista psicológico, emocional, político e ético e que a mesma teria sentido vergonha se tivesse escrito qualquer parte do guião do filme. Existe aqui uma m***anha de distância entre o que é uma tradução académica de uma obra literária canónica e o que é uma adaptação cinematográfica universal - literatura épica versus cinema épico portanto. Nolan acaba por preferir uma abordagem em voo rasante à obra que não é isenta de extraordinários momentos de grande recorte estético e tensão narrativa, momentos esses sobre os quais me debruçarei mais à frente. Foi assim uma decisão de autor para fazer chegar o poema épico ao maior número de pessoas criando desta forma uma obra que é absolutamente para toda a gente, portanto para um público universal - não gerando surpresas assim a classificação do filme de PG-13.
Quanto ao filme em si, o mesmo começa com o título 'A time of apparent magic' (um tempo de magia aparente) - e com uma imagem de um barco na costa, rapidamente découpado para um bardo que canta a nossa estória dizendo(-nos) o seguinte: "Uma cara. Uma frota. Uma guerra. Um homem. Uma ideia. Um truque... um truque para quebrar as muralhas de Tróia. E queimá-la entre gritos até ao chão." Entre estas palavras, ditas entre batuques de um bastão, vemos imagens do mar, de Ulisses sozinho e do cavalo de Tróia semi-enterrado no areal e fustigado por ondas. A primeira sequência que nos é apresentada é a do soldado Sinon que guarda a imponente oferenda para os T***anos desconhecendo todavia o seu conteúdo militar. É imponente o cavalo de Tróia de Nolan, como imponente é a sua localização e inclinação nas areias da praia. Parece saído das areias, a emergir delas como uma torrente e prova de que Nolan sabe trabalhar a informação dentro do frame. Pouco tempo a seguir chegam os cavaleiros T***anos como que saídos duma nuvem branca. Aproximam-se de Sinon e confrontam-no. Pouco tempo depois os homens T***anos retiram o cavalo do abraço do mar puxando-o através de cordas e roldanas - um feito de engenharia ao mesmo tempo que revela o skill de direcção de fotografia de Van Hoytema nomeadamente de enquadramento e de panorâmica, onde se corta com a câmara, ao mostrar o cavalo, ventre virado para nós e os homens a puxá-lo - o percurso do cavalo cortando ao meio o frame. Corte para a corte de Penélope em Ítaca, onde nos são apresentados Telémaco, filho de Ulisses e Penélope, asfixiados no meio dos vis pretendentes da Rainha Penélope. Seguindo em frente destaco as seguintes sequências como as mais empolgantes do filme: o momento em que se folga a vela do penteconter e ela se abre completamente - um momento deveras emocionante que quase me levou às lágrimas de excitação (relembrando-me a vibração dos filmes de Ray Harryhausen); o facto de se ter usado um barco real, com velas e remos reais não é de somenos importância. A sequência horrorífica com a feiticeira Circe (excelente Samantha Morton) e os esfaimados homens de Ulisses - a sua transformação em porcos é definitivamente digna de um filme de horror. O cíclope comedor de homens de seu nome Polifemo, os seus traços Picasseanos e cor de barro e toda a sequência na gruta. O ataque nocturno a Tróia em modo stealth e a abertura dos portões da cidadela. E por fim a sequência final do regresso de Ulisses a Ítaca - nomeadamente a cena do arco (óptimo som de lira) e a luta com os pretendentes antes de se reunir com a sua Penélope.