17/04/2026
Inhambane volta a ter combustível após duas semanas de sufoco
Hugo Firmino
Depois de dois dias de ruptura total, o combustível voltou a aparecer em Inhambane. Mas o que poderia ser um sinal de alívio rapidamente se transformou num retrato claro de uma crise que está longe de terminar. A reposição trouxe movimento às bombas, mas também trouxe filas intermináveis, tensão crescente e uma cidade inteira a disputar cada litro disponível.
A longa fila de viaturas no centro da cidade expõe a dimensão do problema. Há quem tenha esperado mais de duas horas apenas para conseguir abastecer, num exercício de paciência forçada. Outros nem sequer chegaram a tempo. Com os carros imobilizados, recorreram a bidões, tentando garantir o mínimo necessário para voltar a circular. Para muitos, esta já não é uma situação pontual, é uma rotina imposta pela escassez.
Há histórias que revelam bem o nível de desgaste. Viaturas que ficaram sem combustível em pleno andamento, obrigando os condutores a abandonar o carro e procurar alternativas. Outros nem arriscaram sair de casa. Deixaram os carros parados e organizaram-se para comprar combustível em recipientes, muitas vezes dois ou mais, numa tentativa de assegurar não apenas o presente, mas também o dia seguinte. É a gestão da incerteza, feita litro a litro.
O impacto é particularmente visível no transporte público, um dos sectores mais vulneráveis a esta crise. Motoristas enfrentam dificuldades para manter as rotas, fazem cálculos constantes para esticar o pouco combustível disponível e, mesmo assim, admitem que não conseguem garantir um dia completo de trabalho. Há percursos interrompidos, horários comprometidos e passageiros deixados à espera. E quando nem ao longo da Estrada Nacional Número 1 há combustível, as alternativas praticamente desaparecem.
Perante este cenário, algumas instituições optaram por soluções improvisadas. Em vez de abastecer viatura por viatura, levam tambores até às bombas, numa tentativa de distribuir o combustível pelos seus serviços. Mas nem isso é garantido. Num dia conseguem abastecer, no outro enfrentam restrições. A incerteza domina, e até a esperança passa a ser calculada.
Na única gasolineira em funcionamento, o ambiente é de pressão constante. Desde a noite de quarta-feira, altura em que foi feita a reposição, o movimento não parou. Não houve pausas, não houve momentos de alívio. A fila manteve-se firme, atravessando a madrugada e prolongando-se pelo dia seguinte. O gestor confirma a intensidade da procura, mas evita revelar números. Ainda assim, garante que há combustível para responder à procura imediata, embora admita que as quantidades já não são as mesmas de antes.
O abastecimento decorre sem restrições, numa tentativa de atender todos os utentes, sejam eles automobilistas ou cidadãos com bidões. Mas essa abertura não elimina o problema central: a procura é muito superior à oferta. E enquanto essa equação não mudar, o sistema continuará a operar no limite.
Até ao fecho desta reportagem, apenas uma das três bombas existentes na cidade estava a abastecer.