22/01/2026
Hoje é dia de anunciar o fecho de um dos ciclos mais bonitos que já vivi na minha carreira. Fechamos as cortinas do Shortcutz Maputo. Um fim que poderia ter acontecido mais cedo, mas que valeu a pena tentar evitar.
Quando, em Dezembro de 2019, me sentei numa esplanada fria do Parque nas Nações, em Lisboa, com a Sandra de Almeida, acompanhado do meu amigo Alexandre Matoso, para conhecer a rede Shortcutz, jamais imaginaria as aventuras que iria viver.
Aceitámos o desafio de trazer o Shortcutz para Maputo, o Alexandre e eu. Eu tinha a responsabilidade de começar algo que nunca tinha vivenciado presencialmente o que é, ao mesmo tempo, angustiante e entusiasmante.
E assim foi, com base nos relatos da Sandra e do Alex e após visitar as páginas de praticamente todos os capítulos que existiam do Shortcutz, nos vários países em que a rede estava presente, nasceu, no meu imaginário, a visão daquilo que seria o Shortcutz Moçambique.
Realizámos o nosso primeiro evento em Fevereiro de 2020. Um evento intimista, no restaurante LaMassa, em que convidámos o realizador André Bahule para partilhar connosco o seu filme Nhenha. Em Março chega a pandemia, o que nos obrigou a parar… e reinventar algo que acabava de arrancar! E assim fizemos. Abraçámos o virtual. E continuámos a falar de cinema. O Alex, eu e os realizadores e suas equipas. Conversas com exibição de filmes, claro! Cada uma foi especial, podem crer.
Depois lançámos um novo projecto, os concursos amadores de curtas-metragens, com uma proposta tão simples quanto aliciante: apresentamos um tema e desafiamos quem ama cinema a criar uma curta-metragem com duração máxima de cinco minutos, usando um smartphone ou um tablet. Não sabíamos se ia correr bem. E acabou sendo um projecto incrível. Descobrimos talentos que nos encheram de optimismo e determinação em continuar em frente. Tudo fazia cada vez mais sentido e assim fomos caminhando.
Depois chegou o convite para nos juntarmos ao Shortcutz Amsterdam International Audience Award e, claro, aceitámos. Os nossos parceiros de Amsterdam enviavam para nós as melhores curtas-metragens holandesas do ano e nós tínhamos o desafio de organizar uma exibição e votação do público de Maputo. Tornámos aquele evento uma celebração das culturas dos dois países. Para além do cinema, trouxemos ilusionismo, dança, malabarismo, música, gastronomia e criámos um espaço tão charmoso quanto irresistível.
A Rede austríaca Movies in wonderland juntou-se a nós… e apoiou-nos até ao fim. Foram um suporte imprescindível para conseguirmos crescer e uma janela privilegiada para conseguirmos mostrar um pouco da cultura moçambicana a outras partes do mundo.
E é assim que, chegados a Janeiro de 2026, é altura de fechar as cortinas. Os filmes acabam, por muito bons que sejam. E o nosso capítulo também acaba. A paixão continua e as memórias irão transformar-se em algo belo. Os olhares, as conversas, os sorrisos, os silêncios, o calor, a escuridão de uma sala atenta a um filme… não tem preço nem prazo de validade.
Obrigado a todos os que tornaram esta aventura possível: Sandra de Almeida, Rui de Brito, Alexandre Matoso, Emércio Magaia, André Bahule, todos os realizadores que passarem pelos projectos virtuais Cinema contra Corona e Moz Monday Movies, à rede Shortcutz, à Movies in Wonderland, especialmente à Marlene, a todos os que participaram nos nossos eventos e concursos de curtas-metragens, à Embaixada do Reino dos Países Baixos, ao Centro Cultural Alemão, ao Camões, a todos os colegas da Associação Golpe d´Asa que apoiaram este projecto, à Câmara de Comércio Moçambique-Países Baixos, principalmente Miguel Bos, Andreas Vonk e Yara Mutola.
Nem todos os projectos f**am para sempre e há que saber quando fechar os ciclos da vida. Mas o legado do Shortcutz continuará vivo em Maputo, pelas pessoas que este projecto tocou e, principalmente, pelos talentos que ajudou a lançar para a indústria cinematográf**a nacional.
Viva a cultura!