04/08/2026
Existe um tipo de artista que enxerga a cidade como um roteiro em movimento constante, e no Rio de Janeiro contemporâneo esse artista atende por Hugo Moura. Cineasta de formação e compositor por necessidade, o carioca construiu um catálogo onde é praticamente impossível separar o quadro da faixa sonora. Cada música nasce já com trilha, iluminação e enquadramento definidos, prova de que sua obra sonora é, antes de tudo, um prolongamento direto do olhar de diretor que ele carrega desde os tempos de estudos na Escola de Cinema Darcy Ribeiro / IBAV e na PUC-Rio.
A base sonora é a MPB psicodélica, mas uma MPB que passou por restauração digital sem perder o grão setentista: piano, violão e sopros conduzindo arranjos que soam ao mesmo tempo antigos e recém-saídos do estúdio. Em faixas como "Filmes do Fellini" essa psicodelia flerta abertamente com o jazz minimalista, evocando o neorrealismo e o surrealismo italiano já no próprio título. Já em "A Vampira do Grajaú" o compositor recua para o blues acústico e o folk, provando que seu vocabulário musical é elástico o suficiente para atravessar gêneros sem perder identidade, conforme estudou na Escola De Música Villa-Lobos.
O Rio aparece em cada verso como personagem principal, jamais um cenário decorativo. Grajaú, Lagoa e São Conrado são citados na precisão que um arquiteto desenha o mapa afetivo da cidade, e a arquitetura modernista carioca ganha peso dramático equivalente ao de qualquer protagonista humano. É um Rio filmado em música, onde prédios e esquinas carregam tanta narrativa quanto os personagens que o cineasta cria e recria ao longo de suas canções e curtas.
E os personagens são o coração pulsante desse universo. Bob Jean, o lobisomem caçador que foi “Caçado Na Madrugada”, Diana Beck, arquiteta e manifesto político ambulante que dá nome à faixa "Beck Veneno", e Geni Flor, a mística que sustenta "A Vampira do Grajaú", são figuras urbanas densas, marginais no melhor sentido do termo, carregando resistência, empoderamento feminino e crítica ao machismo dentro de metáforas que preferem a poesia ao discurso direto. São canções que fazem política sem perder o encanto de uma boa história.
Essa vocação narrativa é, talvez, a assinatura mais forte de Hugo Moura. Suas letras recusam o formato tradicional de verso e refrão comercial e se comportam como pequenos roteiros, episódios soltos de uma antologia maior, algo que f**a ainda mais evidente em sua série transmídia Pitako Carioka. O ouvinte não apenas escuta, ele visualiza: cada metáfora é construída para projetar cena, luz e movimento na cabeça de quem está do outro lado do fone de ouvido.
Completa esse painel uma intertextualidade generosa, que dialoga sem cerimônia com ícones da música e da literatura mundial e nacional, de Chico Buarque a Jorge Amado, passando por Bob Dylan. Hugo Moura escreve o seu próprio cinema e filma o que compõe, e é exatamente nesse cruzamento que sua obra encontra a força para ultrapassar o Rio de Janeiro e falar com qualquer ouvinte disposto a fechar os olhos e ver um filme através do som.
Salve a playlist “This Is Hugo Moura” que o editorial do Spotify criou com as músicas mais ouvidas desse artista 🧑🎨 https://open.spotify.com/playlist/37i9dQZF1DZ06evO3AAjch