21/11/2025
Análise de Priscila Salomão
SOBRE O FILME FRANKENSTEIN DE GUILLERMO DEL TORO (2025) 🧟♂️
Não é o melhor de Guillermo Del Toro, mas me comoveu com o temas relacionados à vulnerabilidade humana. Baseado na obra homônima de Mary Shelley, a versão cinematográf**a de 2025 surgiu após mais de um século de desenvolvimento da pasicanálise que preenche os espaço temporal entre Mary Shelley e Guillermo Del Toro.
O filme é imbuído de muitas discuções contemporâneas que dominam o debate público atual sobre temas de psicanálise. Psicanalistas eminentes como Sigmund Freud, Carl Jung e Jacques Lacan perceberam que certos padrões de comportamento perpassam gerações de uma mesma família, resultando no desenvolvimento de neuroses que passam de geração a geração até que alguém se conscientize desse ciclo e decida rompê-lo com a ajuda de um processo terapêutico de individuação em que possa integrar a persona e a sombra, numa perspectiva junguiana.
O conceito de narcisismo a princípio é um diagnóstico psiquiátrico referente a um transtorno de personalidade. Mas se tornou um fenômeno linguístico a partir do momento em que se popularizou e pessoas que não possuem qualquer formação na área de saúde mental atribuem esse rótulo a sujeitos com determinados tipos de comportamento que são considerados inapropriados e sintomáticos do modo de vida exacerbadamente individualista na contemporaneidade. Nesses casos deve-se entender o que esse fenômeno linguístico nos revela acerca da percepção das pessoas sobre certos comportamentos. Há um debate contemporâneo muito intenso sobre o problema do comportamento narcisista como paradigma na cultura e na sociedade. Guillermo Del Toro aproveitou esse debate para desenvolver as relações entre seus personagens.
O pai de Victor Frankenstein era um médico que não amava incondicionalmente seu filho por ele simplesmente existir. Trata-se de um pai frio, sem demonstrações de afeto e que lidava com o filho como um anexo de si mesmo, a quem incumbiu a missão de realizar os sonhos e metas que ele mesmo não obteve ao longo de sua vida. É um amor condicionado: papai só demonstra satisfação com o filho se o filho se comportar de determinado jeito condicionado pelo papai.
O filho, desesperado pela aprovação paterna e dilacerado por essa invalidação de sua real subjetividade e identidade, abdica de seu verdadeiro self, o qual se perde dentro dele, e assume um falso self inflado para satisfazer a sombra paterna que se instala em sua mente e que continua a se manifestar mesmo após a morte do pai. Assim Victor Frankenstein se torna um médico e cientista brilhante, disposto a superar o prestígio do pai e obter validação da comunidade acadêmica. O objetivo consciente do personagem é fama e prestígio através de ousados experimentos. O objetivo inconsciente é a satisfação da sombra paterna que está viva e ativa em sua psique.
Victor Frankenstein é um narcisista que está fragmentado por dentro e destrói a vida das pessoas próximas a ele por causa de sua obsessão por controle, fama, prestígio e validação.
Em relação à criatura, Victor é o criador que br**ca de ser Deus, que só planejou a criação da vida em pedaços de mortos, mas não sabia o que fazer com essa vida depois. Simbolicamente ele cumpre a função paterna, enquanto a criatura é frágil como uma criança que começa a descobrir o mundo e a se surpreender com ele, a falar e a necessitar de amor pois o amor é constitutivo do ser e proporciona suporte necessário para o desenvolvimento saudável de um ser humano em bases sólidas, além das funções vitais de um corpo.
Victor reproduz com seu filho/criatura o mesmo padrão de comportamento de seu pai: amor condicionado, de quem ama apenas se o filho satisfazer suas ambições e o rejeita violentamente se o filho não o faz.
A criatura é tão fragmentada quanto Victor. Não é possível destruir fisicamente a criatura. Quanto mais Victor tenta destruí-la, mais ele mesmo se mutila, se fragmenta e destrói a si mesmo e a sua humanidade.
A criatura passa pelas etapas de luto pela perda do seu criador/pai idealizado: NEGAÇÃO (que o impele à busca por sua origem), DEPRESSÃO (quando percebe sua condição de amalgama de restos de corpos, vê a si mesmo como um monstro repugnante para os humanos), BARGANHA (implora ao criador para que crie alguém como ele, para que possa ter uma companhia que satisfaça sua demanda afetiva), RAIVA (quando se revolta contra o criador/pai por não obter seu amor e compaixão, sentindo-se injustiçado por não ser reconhecido como um ser humano que pensa, sente e sofre), ACEITAÇÃO (a criatura começa a lidar com a perda de forma mais realista, aceitando a nova realidade e encontrando formas de seguir em frente, mesmo que a dor ainda esteja presente). A aceitação culmina com o perdão ao pai, a renúncia de dar continuidade ao ciclo geracional de um padrão de comportamento nocivo e a disposição de viver sem o peso do ressentimento, reconhecendo a si mesmo como um ser humano capaz de integrar sua persona e sua sombra, sem um falso self condicionado por gerações de pais narcisistas. Neste ponto, a criatura se torna digna do nome Victor que signif**a vencedor. 💀
Obs.: gostei muito do s*x appeal masculino, há um erotismo masculino irresistível. A criatura é ambígua por ser um amalgama repulsivo de pedaços de corpos, ao mesmo tempo que seu corpo é belo para os padrões de beleza masculinos. Essa obsessão pela fisiologia humana por parte do cientista resultou na criação de um corpo belo de se apreciar, concomitante com os atributos repugnantes dos corpos mortos.